#6/12
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Houve quem um dia escrevesse que
não sabia se devia começar as suas memórias pelo princípio ou pelo fim.
Também eu me questionei, enleado, se devia começar a minha narrativa pela
verdade ou pela mentira, mesmo que por vezes estas pouco se distingam.
Comecemos, então, pela mentira, a mais verdadeira das ficções. Dito isto,
convém desde já relatar o momento crepuscular em que não cheguei realmente a
conhecer a figura das próximas linhas. O seu nome? Aurora.
“Deusa do amanhecer, que pinta o céu de várias cores ténues,
obriga-me a acordar do meu mundo de sonho para regressar à realidade!” Nunca
lhe atribuí a devida importância, na medida em que, para mim, era, apenas, o
nascimento de outro dia banal, recheado de reclamações por aquilo que não
tenho, ambiciono ou desejo ser.
Contrariamente a Aurora, eu vivia
uma existência singular e egoísta, na qual teimava em cerrar os meus olhos,
abafar o meu cérebro, para que desse modo me fosse possível ocultar os dois
mundos opostos que me cercavam. Sim, esses mesmos, o Belo e o Ruim. Dois
mundos bem à parte do meu, tão peculiar, tão insensível e, tal como já o
afirmei, tão egoísta.
Algo na forma como ela teimava em aparecer, todas as
manhãs, num aviso fulgente de que a vida que eu, lá no fundo, por muito
que não o aceitasse, queria estava à distância de uma mão... Se, ao
menos, eu tivesse a coragem de dar um passo em frente e
agarrá-la! Olhando para trás, percebo que era pura inveja, mas, na
altura, parecia-me arrogante a forma como ela se erguia, os seus olhos apenas
esperança e beleza, independentemente do dia. Alguém precisava de fazer algo,
e eu sabia que mais ninguém daria um passo em frente. Na manhã seguinte,
sentado no meu parapeito, estava preparado.
“Não custa nada!”, repetia eu vezes sem conta, de forma a
entender que aquele era o caminho a seguir para alcançar o tão desejado
tesouro. Todas as manhãs dava por mim a tentar descobrir onde tinha errado
para acabar assim sozinho, numa casa taciturna e com uma vida amargurada e
sem cor. Equiparava a minha existência a um carro velho enferrujado, inútil e
insignificante. Sabia que, para o carro ser utilizado outra vez, teria de
abandonar as peças gastas e alcançar outras melhores que lhe dessem o impulso
necessário para recomeçar. Queria ter uma vida tão brilhante como a de
Aurora; então, percebi que teria de descer um degrau para no futuro poder
subir muitos mais. Reuni o essencial e deixei que ela me guiasse.
"Será a melhor escolha, o melhor caminho?",
perguntava-me constantemente. Num mundo onde existem milhões e milhões de
pessoas, porquê eu? Na hora da verdade, eram muitas as questões que me assaltavam, no entanto,
tive que acreditar, pois, na minha escuridão, só eu entrava e só eu dela
sairia. Segui pé ante pé, apavorado. "E se for imediatamente rejeitado
por todos?". Constatando que era já nesse universo que vivia, segui
viagem. Esta poderia demorar horas, dias, semanas, meses, anos, mas ia com o
intuito de ser feliz, o que já não era há muito tempo. Poderia ficar magoado,
ferido, triste, mas, agora, nada nem ninguém me poderia demover de perseguir
esse desejo. Na manhã seguinte, fui acordado pela chuva, que batia de forma
intensa na minha janela. No passado, o estado do tempo determinava se o meu dia
seria bom, se estivesse sol, ou mau, se estivesse chuva. Contrariamente,
hoje, quem decidia a qualidade do meu dia era eu.
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#6:
Leonor Castro (8.º C)
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- 1.º parágrafo (7 de outubro): Prof. Nuno Ricardo Ferreira
- 2.º parágrafo (7-12 de outubro): Maria Magalhães + Catarina Pereira (8.º C)
- 3.º parágrafo (13-19 de outubro): Rodrigo Silva (8.º D)
- 4.º parágrafo (20-26 de outubro): Carolina Carvalho e Sousa (8.º A)
- 5.º parágrafo (27 de outubro-2 de novembro): Rita Escudeiro de Sousa (8.º B)
- 6.º parágrafo (3-9 de novembro): Leonor Castro (8.º C)
- 3.º parágrafo (13-19 de outubro): Rodrigo Silva (8.º D)
- 4.º parágrafo (20-26 de outubro): Carolina Carvalho e Sousa (8.º A)
- 5.º parágrafo (27 de outubro-2 de novembro): Rita Escudeiro de Sousa (8.º B)
- 6.º parágrafo (3-9 de novembro): Leonor Castro (8.º C)
- 7.º parágrafo (a definir): 8.º D
- 8.º parágrafo (a definir): 8.º A
- 9.º parágrafo (a definir): 8.º B
- 10.º parágrafo (a definir): 8.º A-C
- 11.º parágrafo (a definir): 8.º B-D
- 12.º parágrafo (a definir): Prof.ª Raquel Almeida Silva
Caso pretendas participar, escreve o teu parágrafo (não muito extenso) na secção dos comentários, assinando com o teu nome e turma. Redige o teu texto com total rigor, nomeadamente ao nível da ortografia, pontuação e sintaxe.
Os textos serão publicados após moderação.
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