Johan
Henrik Andresen tinha catorze anos quando decidiu fugir da casa dos pais, em Föhr,
uma das ilhas Frísias, na Dinamarca, porque se zangou com a severidade do pai
ou por qualquer outra razão. Como quer que tenha sido, reza a lenda familiar
que se alistou como grumete no primeiro barco que viu no porto de Föhr e,
vários dias depois, deu consigo numa terra estranha, de gente morena cuja língua
não entendia. Era o Porto, em Portugal. Perdido e sem recursos, num país
estrangeiro, pôs-se a chorar e foi assim que o encontrou um armador da cidade.
Este levou-o para sua casa, onde o fugitivo foi acolhido e tratado como um
filho, tanto que cinco anos depois já estava estabelecido por conta própria,
vindo a tornar-se um dos mais prósperos empresários da cidade, e casando-se com
uma portuense, assim dando origem a um ramo materno da minha família – os
Andresen do Porto.
Reza
ainda a lenda que, quando o seu filho primogénito estava para nascer, Johan Henrik
escreveu para casa, pedindo o perdão e bênção paternas. Respondeu-lhe a mãe,
dizendo que o pai nunca mais o queria ver nem ouvir falar dele. No entanto,
fazia-lhe um pedido: que o seu filho mais velho fosse baptizado com o nome de
Johan Henrik e o filho desse também, e assim sucessivamente, conforme era
tradição familiar. Desta forma nasceu o ramo português da família e o primeiro
de uma linhagem de Joãos Henriques Andresens que vai já na quinta geração. Ligaram-se
ao negócio do vinho, fundaram um vinho do Porto com o nome da família – o Porto
Andresen – e o Boavista Football Club, antes que os seus descendentes tivessem
degenerado adeptos do menos aristocrático mas mais compensador Futebol Clube do
Porto. Foram comerciantes, vinhateiros, armadores, protestantes, caçadores e
nostálgicos. Baptizaram gerações de filhos com nomes nórdicos, adaptados ao português – Elsa, Gardina, Olga, Teodora, para as mulheres, e Gustavo, Guilherme, Thomaz ou o inevitável João Henrique para os homens.
Quando morreu, sem nunca ter
voltado a ver brumas da sua terra, Johan Henrik formulou, por sua vez,
um desejo para se cumprir: que o enterrassem onde pudesse ficar a ver o mar. A família enterrou-o em Agramonte e o seu desejo foi cumprido até que o “progresso” lhe veio tapar a vista com as
construções modernas do Campo Alegre e
da Boavista. Avisado, porém, encarregou
o mestre Teixeira Lopes de lhe esculpir uma escultura de um barco naufragado, que ficou colocada sobre a
sua pedra tumular, em sinal das suas reminiscências vikings e também
como símbolo do impossível regresso a casa. Ao menos assim, quem sabe, terá embarcado
para a eternidade, tal como os antigos egípcios acreditavam.
Todavia, a dissidência
portuguesa não foi a única em
que se dispersou a estirpe nórdica.
Outros Andresen passaram à Alemanha
e chamaram-se Hans Heinrich, outros à América Latina, sob o nome de Juan Enrique e outros
emigraram para os Estados
Unidos, onde foram os John Henry
Andresen. Um dia, realizando um
trabalho de pesquisa sobre a colonização portuguesa na Amazónia, na
época da borracha, fui à Biblioteca
Municipal de Manaus consultar jornais
da época. De repente, folheando um
jornal da passagem do século, parei diante de uma fotografia de um senhor loiro, de barbas,
que me pareceu familiar, sem explicar
porquê. A fotografia encimava uma
notícia necrológica e a legenda a
que ela dizia respeito rezava assim: “O Sr. João Henrique
Andresen, da Associação de comerciantes de Manaus e um dos fundadores
e beneméritos do Teatro Amazonas.”
Então, percebi o que havia de
extraordinário naquela fotografia: é que ele era igual a
mim, quase traço por traço. Lembrei-me do que tinha lido num livro do Corto Maltese: quando encontramos alguém igual a
nós, é sinal de morte. A partir daí, e no pouco tempo que tive para pesquisar,
procurei descobrir o que podia sobre aquele personagem. Mas
não consegui apurar se era um Andresen emigrado directamente da Dinamarca
para a Amazónia ou se era o João
Henrique I ou II, meus avós do Porto, que foram ambos armadores da carreira, Porto – Lisboa –
Belém – Manaus.
Mas a fotografia, essa
não enganava; com duas gerações de intervalo
e dois continentes a separar-nos, ele era fisicamente igual a mim. E ali estavam, naquele rosto, o meu
avô, a minha mãe, os meus tios.
Os mesmos olhos claros que, não fosse a fotografia a preto e
branco, seriam azuis – ou cinzentos ou verdes, conforme a luz que vem do mar –
é o mesmo olhar, que e uma marca de família e que tão depressa está preso ao mundo, às
conversas e aos outros, como de repente se ausenta, a meio de uma conversa, como quem regressa a casa. A mesma, insondável e incompreensível, nostalgia boreal, essa
saudade do norte em pleno sul, esse absurdo desejo de neblina no
esplendor da luz – mesmo em Manaus.
Alguns de nós,
Andresen, nascemos com veia de contadores de histórias. Eu também cultivo o género
– umas vezes por profissão, outras por distracção. A noite passada, tendo de improvisar
uma história para adormecer o meu filho mais pequeno, lembrei-me de lhe contar
esta. Acrescentei a lenda, com tempestades no Golfo da Biscaia, dramas na Ribeira
e romances no Douro. Deliberadamente, para que ele, por sua vez, acrescente
outras lendas, mais tarde. Pensando bem, acho que essa é uma das funções da família:
que cada geração imortalize as anteriores. Não sendo assim, só nos resta a
previsibilidade destes tempos sem antepassados escondidos em porões de navios,
pais ausentes que enviam ordens severas sob as quais se esconde a fraqueza dos
sentimentos, e avós que fundam teatros barrocos na Amazónia.
(Ao meu tio Gustavo
Andresen, o guardião destas coisas)
Miguel Sousa Tavares, in Não te deixarei morrer, David Crocket (2001)